Encontro de Cafeicultura do Brejo da Paraíba vai ser realizado em abril
Há décadas, o Brejo da Paraíba foi uma das regiões que desenvolveu a produção de café no Brasil. No final do século XIX e início do século XX, municípios como Areia chegaram a cultivar milhões de pés de café, tornando a cultura uma das principais bases da economia local. No entanto, a partir de 1920, diversos fatores levaram à decadência da cafeicultura na região: mudanças climáticas, falta de incentivos governamentais, ausência de assistência técnica e a infestação da praga Cerococcus parahybensis, uma cochonilha que devastou lavouras inteiras.
Agora, um século depois, Areia está testemunhando um movimento de resgate da produção cafeeira, liderado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O projeto teve início em 2016, quando o professor Guilherme Podestá, em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) , trouxe sementes de diversosgenótipos de Coffea arabica para testar sua adaptação ao clima local. Os resultados foram promissores, e várias cultivares demonstraram boa adaptação, reacendendo a esperança de um novo ciclo produtivo na região.
O avanço dos estudos levou à criação do Núcleo de Estudos em Cafeicultura da UFPB, NECAF, envolvendo estudantes e pesquisadores dedicados ao desenvolvimento da cultura do café. O grupo, agora em processo de formalização de uma empresa júnior, pretende oferecer suporte técnico aos produtores, auxiliando na implementação de lavouras e no manejo adequado da cultura.
A partir de 2022, o projeto ganhou ainda mais força, expandindo os experimentos para avaliar fatores como controle de pragas e doenças, influência de polinizadores na produtividade, cultivo orgânico e fermentação do café. Além disso, uma parceria com a Embrapa e com o Sebrae-PB permitirá a criação de um campo experimental de Coffea canephora, ampliando a pesquisa e diversificação das espécies cultivadas. Atualmente, o campo varietal da universidade conta com 32 variedades e 21 genótipos de café arábica, além de um viveiro para produção de mudas.
O impacto do projeto já pode ser sentido na economia local. Em parceria com o curso de Design da UFPB, foi desenvolvida uma marca e embalagem para o café produzido na universidade, que em breve poderá ser comercializado para divulgação e arrecadação de recursos para a manutenção do projeto. A marca se chama Grãos da Parahyba. Além disso, em colaboração com a Associação de Turismo Rural e Cultural de Areia, Atura, mudas foram distribuídas a produtores locais para estimular experiência de visitantes com o cultivo do café.
A primeira colheita dessas plantações está prevista para este ano, marcando um novo capítulo para a cafeicultura do brejo paraibano. O presidente da Atura, Leonaldo Alves, destaca que a crescente produção de café em Areia tem o potencial de impulsionar o turismo de experiência, atraindo visitantes interessados em vivenciar o processo produtivo, da lavoura à xícara. Segundo ele, esse movimento também incentiva a abertura de novas cafeterias e estabelecimentos, fortalecendo a economia local e consolidando Areia como referência na cafeicultura do Nordeste.
A revitalização do cultivo do café não traz apenas benefícios econômicos, mas também fortalece o turismo regional. A ideia é criar uma rota turística focada na experiência do café, permitindo que visitantes conheçam as plantações, participem da colheita, acompanhem o processamento e degustem um produto genuinamente paraibano.
Segundo o professor da UFPB, coordenador do projeto de resgate da cafeicultura no Brejo Paraibano e orientador do NECAF, Guilherme Podestá, “o retorno da cafeicultura em Areia é um exemplo de como a pesquisa, o incentivo ao empreendedorismo e o resgate histórico podem transformar a realidade econômica e cultural de uma região”, enfatizou Podestá.
Esse investimento no retorno da produção de café em Areia está sendo evidenciado no evento Conexão Nordeste, I Encontro de Cafeicultura do Brejo da Paraíba, promovido pelo NECAF e Atura, tendo como parceiros Sebrae-PB, Faepa-Senar, Governo do Estado, deputado Eduardo Carneiro e Embrapa Alimentos e Territórios. Estarão presentes especialistas, produtores e pesquisadores para discutir o fortalecimento da produção cafeeira na região.
A cidade de Areia tem sido a escolhida por pesquisadores e estudiosos por concentrar um ecossistema favorável ao desenvolvimento da cafeicultura, com a presença de instituições de ensino e pesquisa, além do crescimento do turismo rural e gastronômico ligado ao café.
O evento contará com a participação de profissionais de estados como Bahia, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, destacando a necessidade de reconectar a cafeicultura nordestina e resgatar sua relevância histórica.
Outro ponto forte do evento será a valorização da participação feminina no setor. A ideia é fortalecer a visibilidade e a representatividade das mulheres em toda a cadeia do café, desde a produção até a gestão e comercialização. A Aliança Internacional das Mulheres do Café – IWCA Brasil, organização global presente em 35 países, terá uma atuação destacada na programação, com integrantes da diretoria.
Para Renata Silva, analista de inovação da Embrapa Alimentos e Territórios e diretora da Coffee Experts da IWCA Brasil, “as mulheres desempenham um papel fundamental na cafeicultura, dentro e fora da porteira, e na Paraíba não é diferente. Por isso, no evento, um painel discutirá como elas estão fazendo a diferença no setor, destacando profissionais de relevância nacional e incentivando a integração e atuação feminina na cafeicultura local”, reforçou Renata.
A presença de cerca de 20 especialistas renomados no Conexão Nordeste mostra o compromisso com o desenvolvimento econômico e social da região, conectando café, turismo e gastronomia a um modelo sustentável, destacou Renata Silva.
A presença da Embrapa Alimentos e Territórios no Brejo da Paraíba é fundamental para conectar produtores rurais, agroindústrias, o setor turístico e outras atividades econômicas em torno da valorização territorial. Com condições climáticas e de solo diferenciadas, a região tem potencial para oferecer produtos agroalimentares únicos, que podem ganhar valor agregado por meio de diferenciação sensorial, certificações e identidade territorial, defendeu Aluísio Goulart, analista da Embrapa.
O evento Conexão Nordeste marca o início de uma rede voltada à cafeicultura nordestina, integrando turismo e produção para fortalecer a economia local. O objetivo é que os visitantes não apenas experimentem os sabores da região, mas também levem consigo a riqueza cultural e ambiental do território.
Ainda segundo Aluísio Goulart, a instituição Embrapa, segue comprometida com essa iniciativa, incentivando a conexão entre os atores e a valorização dos produtos regionais. O Conexão Nordeste promete voltar os olhos do país para Areia e impulsionar de vez a atividade da produção de café no território paraibano.
Serviço:
Conexão Nordeste, I Encontro de Cafeicultura do Brejo da Paraíba, ocorre nos dias 09 e 10 de abril, no auditório do CCA Centro de Ciências Agrárias da UFPB, campus Areia.